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ERRO DE IMPRENSA
VEÍCULOS JORNALÍSTICOS COMETEM EQUÍVOCO CITANDO GÍRIA EM TEXTOS FORMAIS

Prática acaba comprovando o caráter artificial da gíria "balada", pois ela é posta acima de seu contexto coloquial

A grande imprensa está cometendo um erro constrangedor. Aparentemente, esse erro é insignificante se desconhecermos os contextos e propósitos que estão por trás dessa prática, mas, uma vez considerados tais contextos e propósitos, o erro pode ser não apenas reconhecido, como discutível.

Está no Jornal Hoje, no Globo Repórter e outros veículos da Rede Globo de Televisão. Está nas páginas das revistas Época, Veja, Isto É e outras de jornalismo geral. Está nas páginas da Contigo, Boa Forma, Nova Cosmopolitan, Capricho, Placar e outras de diversos gêneros. Está no Jornal Bandeirantes. Está nos programas do canal Multishow. Está no Vitrine da TV Cultura, nos programas "radicais" da SPORTV. Está nas páginas de Esportes e de Cultura de jornais como O Estado de São Paulo e Jornal do Brasil. Está nas colunas de cultura, comportamento e entretenimento dos diversos jornais do país. Está na Internet, em seus diversos informes sobre entretenimento, às vezes no próprio título das retrancas. Enfim, a "galera" da imprensa está falando o termo "balada", uma simples gíria, como se já tivesse saído do âmbito coloquial e ter virado, "na faixa", sinônimo "sério" de festas noturnas.

Isso soa ridículo. Parafraseando o jornalista Bóris Casoy, "isso é uma vergonha". A expressão "balada" é própria do colóquio clubber. Que os jovens fiquem falando informalmente a expressão, vá lá, embora todos nós sabemos que essa gíria surgiu dos escritórios refrigerados de empresários da 'noite'. Mas ser pronunciada "a sério" pela imprensa falada e escrita, é um grande absurdo.

A expressão "balada" não se tornou sinônimo de festas noturnas, de agitos noturnos. É uma gíria, tal como "mané" é gíria. Ninguém fala "uma galera de manés invadiu uma fazenda improdutiva, brou" quando se noticia a invasão dos "sem-terra" em uma propriedade, não é mesmo? Mas o noticiário já não fala mais de "agitos noturnos", mas de "baladas".

Isso prova mais uma vez que, do contrário que certos jovens irados - quer dizer, jovens IRADOS mesmo, reacionários e esquentadinhos - querem insistir, a palavra "balada" nada tem de gíria naturalmente formulada. Se assim o fosse, a gíria não estaria sendo pronunciada por veículos sérios da imprensa falada ou escrita, nem mesmo em informes de entretenimento, por mais leves que sejam. 

Quando muito, a palavra "balada" seria falada apenas em programas não-jornalísticos de entretenimento, destes em que a celebridade do momento brinca de repórter para perguntar bobagens para os freqüentadores de um determinado local.

Dá um constrangimento ver pessoas mais experientes e de credibilidade como Carlos Nascimento e Sandra Annemberg, entre tantos outros, citando uma gíria que está mais para os clubbers imbecilizados nascidos depois de 1978 e que desperdiçam suas juventudes com uma overdose de noitadas, praias e eventos "radicais" e ainda usam telefones celulares para brincar de bater fotos ou mandar "cantadas eletrônicas" - os tais "torpedos" - para os respectivos pretês. Não dá para pessoas mais velhas e mais inteligentes absorverem "na boa" uma gíria que corresponde a uma geração que abomina a leitura, só gosta de fenômenos culturais de "sucesso" e sente ódio mortal ao senso crítico. 

Não custa dizer que é constrangedor, estarrecedor e até irritante ver certos jovens desperdiçando sua capacidade de se revoltarem para defender essas bobagens que estão aí, veiculadas exaustivamente pela grande mídia dedicada aos teens e tweens (o que no tempo de nossos pais era classificado como 'infanto-juvenil'). 

Você critica um grupelho como Rouge e vem garotinha enfezada mandando um e-mail revoltado. Você fala mal Axl Rose ou do Chorão do Charlie Brown Jr. e vem um playboy indignado escrevendo que você é "imbecil". Você critica o perfil imbecilizado de rádios como Jovem Pan 2 e 89 FM (Rádio Cidade para os cariocas) e seus produtores, fantasiados de ouvintes, escrevem mensagens furiosas e cheias de calúnias contra você (e você logo vê que é gente das rádios, tal é a "intimidade" com que falam de certos profissionais). Você critica a axé-music do Chiclete Com Banana e as "burrinhas" Sheila Mello e Scheila Carvalho e vem um defensor ou defensora deles com sentimentalismo nervoso desqualificando seus comentários críticos, por mais lógicos que estes sejam. Enfim, essa "galera", no futuro, poderá se transformar em adultos autoritários, ultra-conservadores e, quem sabe, integrantes de uma ditadura rigorosa, a não ser que nos despertemos para combater esses boçais.

Que mudanças de palavras sejam permitidas, transformando os significados ao longo do tempo, tudo bem. Mas não de forma a bagunçar a lógica do idioma, mesmo se essa lógica não siga padrões da língua culta. Mas uma coisa é a natural transformação lingüística de um povo, a partir de colóquios espontaneamente desenvolvidos, que, mesmo sem ser cultos, possuem uma lógica social, espacial e temporal. Outra coisa, no entanto, é essa gíria "balada", criada por executivos e DJs de casas noturnas e ser vendida não apenas como uma gíria supostamente "espontânea", mas agora como um sinônimo "pra valer" de festa noturnas.

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