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POR QUE A GÍRIA "BALADA" É ARTIFICIAL

Certamente você lê as revistas dedicadas aos jovens, vê os programas de TV dedicados aos jovens, ouve rádios dedicadas aos jovens, lê jornais e sites da Internet dedicados aos jovens e quando há alguma coisa relacionada com "agitos", pinta o termo "balada".

Você, feliz com esse universo mediático "ágil e dinâmico", com sua rotina que aparentemente não é traída pelos meios de comunicação, deve imaginar que a palavra "balada", num sentido bem diferente e até oposto ao que você aprendeu quando era bebezinho, é uma gíria surgida espontaneamente na night, só porque todos os seus colegas utilizam tal expressão.

No entanto, essa gíria é extremamente artificial. Sei que dói mais em você do que nós, e você costuma chamar de "imbecis" as vozes que discordam de seus limitados pontos-de-vista. Que, no raciocínio que você tem, não são "limitados", pois são seu mundo. Um mundo pequeno que parece não ter território, com pessoas sem cara nem identidade, que podem ter vários nicks (apelidos) nos chats, e que por isso não parece ter "mesmo" limites.

A gíria "balada" surgiu nos escritórios publicitários, com a participação das FMs de dance music. É, portanto, uma gíria ligada a essa dance music farofa, a esse tum-tum-tum que só serve para cretinos praticarem ginástica aeróbica. Mas qualquer um que revela que essa gíria foi artificialmente difundida por executivos é chamado de "otário", nessa onda de terrorismo semântico. Afinal, "otário" agora virou sinônimo de alguém que discorda da "opinião da galera", ou seja, a visão "dominante" dos jovens. Deixou de ser sinônimo de pessoas menos esclarecidas, porque aí seria entregar a própria juventude à palmatória.

Os primeiros vestígios dessa "nova" significação da palavra "balada" surgiram nas rádios Jovem Pan 2, Metropolitana e Energia 97 FM, geradas de São Paulo. Ou seja, rádios de dance music. Mas até os jovens que hoje se acham "roqueiros radicais" usam e abusam de gírias clubber. Depois a gíria pegou, sendo observada da da revista Contigo à também revista Trip, da Band FM à Brasil 2000, das alegres festas de axé-music à fúria sem causa dos concertos de nu metal. Ficou uma coisa ridícula. Gargalhadas são inevitáveis quando se vê zineiros do Rio de Janeiro, desses metidos a novos "gurus" da cultura underground, abusarem do termo "galera", clássico jargão do mais vulgar vocabulário pagodeiro dos subúrbios de Salvador. Pouco importa aqui se o zineiro mora em Vila Kennedy, tão subúrbio quanto o bairro soteropolitano de Paripe. Uma coisa é zineiro "cabeça" curtindo skate rock tipo Lagwagon, NOFX e Pennywise. Outra é pagodeiro pseudo-machão, que rebola feito mulata assanhada nos shows de seu grupo favorito, podendo ser Psirico, Oz Bambaz ou os "profissionais" Harmonia do Samba e É O Tchan. Não dá para os dois falarem a mesma língua.

Da mesma forma, de que adianta os roqueirões das gerações mais recentes adotarem gírias clubber, como "balada" (no sentido de "agito") e "galera", só porque o Chorão do Charlie Brown Jr., com aquela voz de playboy afetado, andou falando? Chorão não é guru dos roqueiros para estes ficarem seguindo aquele em tudo que faz. Além disso, é muito patético skatistas e clubbers se engalfinharem pelas ruas, madrugada adentro, quando falam as mesmas gírias, os mesmos jargões. Essa juventude tem muito o que observar de si mesma, porque a mídia está fazendo os jovens atuais de bonecos de marionetes. Só quando a coisa pesar para esses jovens é que eles perceberão que os "otários" não são as vozes que discordam dos pontos de vista da "galera", mas sim a própria "galera" que fica aceitando as armadilhas que a mídia prepara para elas (e contra elas).

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