Page archived courtesy of the Geocities Archive Project https://www.geocitiesarchive.org
Please help us spread the word by liking or sharing the Facebook link below :-)


A "CRISE DOS 25" DA GERAÇÃO PÓS-1978

Recentemente, a revista Isto É fez uma reportagem sobre a crise dos 25 dos jovens atuais. O periódico da Editora Três tomou como base o livro A crise dos 25, das autoras norte-americanas Alexandra Robbins e Abbe Wilner, que analisa a entrada dos jovens na vida adulta, o que geralmente ocorre na casa dos 25 anos.

Hoje em dia, então, a situação toma um caráter peculiar. Não de forma alegre, pois desde 2003 vemos chegarem aos 25 anos uma geração que foi afetada por todo um esquema de alienação, consumismo, conformismo e informações confusas e equivocadas veiculadas desde os tempos de Fernando Collor de Mello e intensificadas durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso.

É uma geração que prolongou sua adolescência, desperdiçou seu potencial de rebeldia na obsessiva curtição a festas, esportes radicais, praia e desfiles de moda. Menospreza os valores do passado, muitas vezes com certa arrogância, a ponto de desprezar até mesmo muitas conquistas dos anos 60. Superestimam as relações sociais pela Internet, tendo se divertido com supérfluas ou até mesmo duvidosas amizades por e-mails, chats, fóruns, blogs e agora pelo Orkut, a moda do momento (2004). Não tomam cautela em conhecer quem é que pode mesmo ser amigo, quem realmente é fulano, e não desconfiaram coisa alguma com os pseudônimos que apareciam nos chats (salas de bate-papo na Internet).

Esses jovens, que tiveram a infância marcada por Xuxa e Trem da Alegria, a adolescência marcada pelo grunge e pela dance music farofa, já encararam o desafio de entrarem nas universidades na virada da década de 90 para o começo do século XXI. Alguns se deram bem, abrindo a mente e saindo do casulo consumista e alienado dos anos 90. Mas a maioria penou, achando que o ensino superior só servia para lhes inserir no mercado de trabalho, como se fossem meros cursos profissionalizantes.

É esse pessoal que acaba sofrendo a crise dos 25 anos. Acostumados com a adolescência, vêem na Universidade um ambiente igual ao de um curso secundário. Só estudam e lêem livros quando obrigados pelo currículo acadêmico, e não tiram proveito à vida pessoal dos conhecimentos aprendidos. Só com muita dor na consciência começam a aprender que a vida não é só noitadas, praia e que a história moderna da humanidade surgiu muito antes dos anos 90 em que essa juventude se apegou, a ponto de não ter visto a década acabar no crepuscular de 2000 e 2001. Ninguém celebrou o fim dos anos 90, vale lembrar.

Em outros tempos, os jovens de 20 a 24 anos conseguiam unir conhecimentos de fatos e fenômenos mais antigos e instinto inovador, e com base no que aprenderam de velho, concordando com ele ou não, criaram algo novo, renovando a linguagem cultural. Com 25 anos, um jovem já produz tese de mestrado, já se torna professor, já tem bagagem suficiente para criar coisas novas, mas sem ignorar as referências antigas, no seu diálogo que pode ser discordante, mas nunca é nulo ou indiferente.

Exemplos não faltam. Jimi Hendrix gravou Are You Experienced aos 24 anos. Os Beatles, no álbum Sgt. Pepper's, tinham entre 24 e 27 anos. Leila Diniz, ao se despedir do mundo com apenas 27 anos, já tinha feito muito como atriz, mulher e aspirante a intelectual. Syd Barrett tinha apenas 21 anos quando lançou The Piper At The Gates Of Dawn de seu grupo Pink Floyd e, quando gravou suas músicas solo, tinha entre 22 e 24 anos. Com Satisfaction, Mick Jagger e Keith Richards tinham apenas 22 anos. Com a criação de Pet Sounds, Bryan Wilson tinha entre 22 e 24 anos. Gilberto Gil e Caetano Veloso tinham 25 anos quando iniciaram sua popularidade. Raul Seixas já tinha larga experiência musical antes dos 30. Glauber Rocha fez seu impactuante Deus e o Diabo na Terra do Sol aos 25 anos. Buddy Holly, Elvis Presley e Bill Haley estavam longe dos 25 anos quando passaram a fazer rock. João Gilberto já era músico veterano quando, aos 27 anos, lançou a Bossa Nova. Com 24 anos, Rogério Sganzerla fez O Bandido da Luz Vermelha. Com 28 anos, o ator e diretor Luiz Sérgio Person (o saudoso pai das deliciosas Domingas e Marina Person), já tinha bagagem suficiente para fazer São Paulo S/A. Renato Russo já era a voz dos jovens quando tinha 26 anos de idade.

Mas, e hoje? Quem é que transforma as artes dos 20 aos 24 anos hoje em dia? Só uns poucos. Até o filho de Glauber, Erik, fez um esforço solitário de fazer um filme crítico, reflexivo e o oposto do pipocão das turmas da Conspiração Filmes/Globo Filmes. Quem tenta ser ousado antes dos 25, 26 anos, está praticamente fazendo sermão para um deserto. A maioria dessa geração, que chama tudo que for multidão de "galera", ainda está na adolescência quando atinge os 25 anos.

O jovem de 20 a 24 de hoje, 2004 (quando este texto está escrito), ou, mais especificamente, o sujeito nascido depois de 1978, passou a infância vendo Xou da Xuxa e Viva a Noite e ouvindo Trem da Alegria, passou a adolescência ouvindo grunge e aquele rock comercial que até hoje imagina ser "alternativo" (do Dishwalla ao Semisonic, do Korn ao Marilyn Manson, do Fastball ao Sugar Ray), e quando entrou na Universidade, sua bagagem de livros lidos antes é abaixo do medíocre. Não leu sequer O Pequeno Príncipe e acha que ler Estação Carandiru e Cidade de Deus é tudo que se deve ler de toda a história da literatura humana. Nada contra esses três livros, tudo a favor até, mas há muita coisa bacana além deles.

O jovem de até 25 anos nesse início do século XXI ainda está apegado às noitadas. Quando sai da Universidade, ainda fala gírias de garoto de 14 anos. É muito inseguro para defender seus direitosou ter uma visão crítica do mundo. Ainda vê a vida como uma interminável recreação. Vê o hit-parade das rádios como um universo perfeito (apesar de suas grandes falhas), vasto (apesar de sua limitada constelação de ídolos) e inquestionável (apesar de seu quadro inspirar fortes questionamentos).

Para piorar os casos, a campanha negativa dos anos 80 fez os jovens esquecerem a própria década de suas infâncias. Se compararmos com os indivíduos nascidos em 1971, que quando crianças puderam conhecer os anos 60 quase que como se tivessem vivido a década, isso é um agravante, pois um típico indivíduo nascido em 1981 não conhece os próprios anos 80 e, quando passa a conhecer a década referida, hábito que começou a desenvolver nos últimos cinco anos, já a conhece de forma caricata, estereotipada pelos suplementos teen engraçadinhos e pelas fragmentárias informações da grande imprensa, em que se sabe apenas um pouco de tudo, mas não o muito de alguma coisa.

A "crise dos 25 anos", na reportagem da Isto É, mostrou até um engenheiro que, aos 27 anos, queria dar um tempo nas "baladas". Só que ele deveria também dar um tempo nessa linguagem aborrecente, além de pensar no fim das noitadas. Isso porque vem a fase adulta e ninguém vai ficar a vida toda chamando todo mundo de "galera" depois dos 30. Já nem era para falar tais gírias depois dos 20...

A "crise dos 30 anos", para a geração pós-78, ainda vai fazer a "crise dos 25" parecer fichinha.

1