A IMPORTÂNCIA DE SE TRANSMITIR

CONHECIMENTOS CIENTÍFICOS

Bruno Maçães

 

Vivemos tempos maravilhosos. Da segunda metade deste século até pelo menos a próxima década, nós, seres humanos, atingiremos níveis de bem estar que não podiam sequer ser imaginados até mesmo por monarcas de grandes impérios do passado. Que rei poderia pensar em comunicação instantânea, ou em curas seguras para a maioria das doenças que nos afetam ? Viagens intercontinentais em poucas horas ou a conquista do espaço eram impensáveis. Todos, até os mais ricos e cultos, estavam à mercê de grandes males.

Apesar de não estarmos confortáveis com a violência de nosso mundo atual, a verdade é que nosso passado sempre foi muito mais violento. Escravidão e tortura, por exemplo, eram perfeitamente aceitáveis. As guerras eram muito mais freqüentes. Em qualquer lugar na superfície da Terra, era muito raro para qualquer um não tomar parte em alguma guerra, enquanto vivesse. O jugo do inimigo ou a escravidão eram ameaças constantes. Nas cidades e no campo, era impossível sair de casa à noite. Muito mais do que hoje em dia, os bandidos "tomavam conta" das ruas. E não havia iluminação pública. Em nossos dias, apesar de nossos temores, mesmo à noite temos boas chances de voltar para casa ilesos.

A peste e a fome também eram terríveis ameaças. A produção de alimentos não excedia em muito as necessidades da população, e os métodos de estocagem não eram muito desenvolvidos. Não havia geladeira nem embalagem a vácuo. Se o clima não fosse favorável em um ano, no ano seguinte a fome era uma certeza. Com a fome poderia vir a peste, ainda mais assustadora. Noções de higiene não existiam. Esgotos corriam a céu aberto, no meio das ruas, que tinham um formato em V. Não havia vacinas ou remédios como os de hoje em dia. A desnutrição aumentava a vulnerabilidade das pessoas à doença. A mortalidade, assim, era muito maior do que atualmente. Para as mulheres era tão comum perder seis entre oito filhos que lamentar-se diante destas circunstâncias simplesmente não era aceitável. Por falar em mulheres, estas sempre foram consideradas um pouco menos que humanas !

Poderíamos aumentar muito a lista das desvantagens de se ter vivido no passado, apesar de nossos avós terem muitos elogios a ele e estarem sempre indignados com o presente. Mas o fato é que atualmente, apesar de todos estes problemas persistirem, eles atingem uma proporção menor de nossa população. Enquanto no passado o lugar comum era a pobreza, atualmente até mesmo operários gozam de um bem estar material superior ao da nobreza do passado.

Vivemos mesmo em uma época de ouro. Mas e o futuro? Se a humanidade sempre progrediu até os níveis atuais, não deveríamos esperar que o mesmo acontecesse no futuro? Nosso futuro seria tão brilhante a ponto de usarmos óculos escuros? Infelizmente, não podemos responder, porque o futuro é imprevisível, e neste caso devemos admitir que as duas possibilidades existem. Ou seja, nosso futuro tanto poderá ser melhor quanto pior do que nossa época de ouro atual.

Ao mesmo tempo em que melhoramos, surgiram muitos problemas novos, que não existiam no passado. Assim, em nossa época existem resquícios de problemas que vieram do passado e novos problemas cujas conseqüências não são totalmente conhecidas. Todos eles estão se ampliando rapidamente e ameaçam nosso futuro, se não forem resolvidos. A solução, como não poderia deixar de ser, passa pelo domínio da política. Mas diferentemente de outros problemas humanos a solução destes também pressupõe um grau mínimo de conhecimento científico daqueles que terão de resolvê-los, ou seja, todos nós. Se não pudermos entendê-los, eles acabarão por dominar-nos. Para entendê-los é essencial aumentarmos nossa consciência deles. Alguns destes problemas, como a superpopulação, a proliferação nuclear e a degradação do meio ambiente, que traz o desequilíbrio do clima e enormes prejuízos, surgem devido ao analfabetismo científico atual, e só podem ser devidamente combatidos se forem entendidos por todos. É oportuno comentar cada um deles brevemente. Depois disto teremos entendido porque é tão importante transmitir conhecimento científico ao maior número possível de pessoas.

A degradação ambiental atual acontece devido à superpopulação humana (que comentarei mais adiante) e à exploração econômica exagerada dos recursos naturais. A exploração econômica exagerada acontece porque nossa percepção do tempo é muito míope. A maioria de nós preocupa-se apenas com problemas que podem ser claramente percebidos num prazo muito curto. Problemas não percebidos imediatamente são totalmente ignorados. Um exemplo bem conhecido disto é o ato de fumar. Fumantes não conseguem ver no dia a dia o mal que estão causando a si mesmos, porque os efeitos do fumo são cumulativos e começam a se manifestar apenas depois de anos. Um outro exemplo é passar horas ao sol sem proteção alguma. Os efeitos danosos dos raios ultravioletas solares só aparecem depois que tiverem provocado diversas mutações nas células da pele. É impossível percebê-los, mas quanto mais nos expomos ao Sol, mais estamos aumentando as chances de termos câncer de pele. Com o meio ambiente acontece a mesma coisa. Nossa miopia, aliás, é ainda maior neste caso, porque o efeito daquilo que fazemos não vem enquanto vivemos, mas sim ao cabo de várias gerações.

Se a maioria de nós conhecesse melhor ciência, esta miopia seria corrigida. A ciência nos diz que nosso tempo de vida é apenas um sopro na imensidão da história do Universo. As mudanças geológicas, climáticas e nos ecossistemas levam em geral muitos milhares de anos para acontecer. A Terra formou-se há quatro bilhões e meio de anos, e a vida surgiu logo depois que ela esfriou, há cerca de quatro bilhões de anos. Formas de vida macroscópicas e complexas surgiram há cerca de quinhentos e cinqüenta milhões de anos, numa era que chamamos Cambriano. Desde a "explosão" do Cambriano até hoje, ocorreram cinco grandes extinções nas espécies da Terra. Algumas delas, como a extinção do fim do período Permiano, há duzentos milhões de anos, acabou com 95% das espécies. A última grande extinção em massa ocorreu há 65 milhões de anos, num período que chamamos Cretácio. A causa desta extinção foi a queda de um gigantesco meteoro na Terra. Desde o surgimento de nossa espécie, está em curso a sexta extinção em massa em nosso planeta, desta vez provocada por nós. Até nosso século, este problema não era realmente preocupante. Apesar de, por onde quer que tenha passado, o homem primitivo ter eliminado diversas espécies em todos os continentes, este efeito não chegava a arranhar a imensa diversidade de espécies então existente. Mas atualmente as demandas surgidas com o aumento populacional e o crescimento econômico a qualquer custo fez-nos competir por espaço com o meio natural. Utilizamos muito mais recursos do que a natureza consegue repor, e rapidamente acabamos com eles. Se a população dos países desenvolvidos tem uma preferência por móveis de mogno, no terceiro mundo as madeireiras cortam o mogno em busca de lucro. Mas uma árvore de mogno leva mil anos para crescer. Quando é derrubada, em meia hora, e em troca de pouco dinheiro, leva consigo cerca de duzentas espécies diferentes de insetos que nela habitam. Algumas espécies vivem apenas naquela árvore! Muitas espécies são extintas antes mesmo de chegarmos a conhecê-las.

Certo, mas qual é o problema com isto? Qual o problema em termos algumas espécies de insetos repugnantes extintas? O problema é que em algumas destas espécies poderia estar a cura para importantes doenças humanas, algo de valor incalculável que foi perdido para sempre por um punhado de dinheiro. Este é um dos motivos mais importantes para tentarmos manter o número de espécies na Terra. A biodiversidade nos fornece uma verdadeira biblioteca de possíveis combinações de DNA, muitas das quais podem nos ser úteis. Mas deixando de lado interesses econômicos, as pessoas que têm educação em ciência não consideram toda esta variedade de insetos repugnante em absoluto. Ao contrário, toda esta variedade é vista como uma inacreditável maravilha, que deveria ser preservada em si mesma, mesmo que não houvesse qualquer motivação econômica. Cientistas vêm beleza na natureza. Por que então deveríamos destruir belezas?

Um outro aspecto importante ao lidarmos com questões ligadas ao meio ambiente é que estamos alterando muito rapidamente algo que ainda não entendemos completamente. Existem fortes evidências de que o clima na Terra é grandemente influenciado pelos seres vivos. Todos os seres vivos do planeta criam as condições para sua própria sobrevivência. Tanto a composição atmosférica da Terra quanto sua temperatura seriam reguladas desta forma. Os gases presentes na atmosfera, por exemplo, são repostos a todo momento pelos seres vivos. Se isto não acontecesse, eles reagiriam entre si em pouco tempo e o resultado seria uma atmosfera em equilíbrio químico, muito semelhante às atmosferas dos planetas Marte e Vênus, compostas principalmente por gás carbônico, e não por nitrogênio e oxigênio, como atualmente. Todas as espécies em nosso planeta são interdependentes. Nossos excrementos, na forma de gás carbônico, são reciclados pelas plantas, que os utilizam para obter alimento. Nossas fezes são digeridas por microorganismos presentes no solo, que também ajudam as plantas a fixar certas substâncias necessárias a seu crescimento. De outro lado, nós também utilizamos os resíduos das plantas, respirando o oxigênio que elas produzem. Dependemos crucialmente das plantas para obter energia, também. Apenas os vegetais são capazes de utilizar e armazenar os fótons de energia emitidos pelo Sol. Quando comemos carne ou vegetais estamos utilizando esta energia que foi armazenada pelas plantas - os animais que fornecem carne comeram plantas ou comeram outros animais que comeram plantas !

Os seres vivos são capazes de regular até mesmo a temperatura do planeta, de modo que esta permaneça confortável por longos períodos de tempo. Se o clima da Terra tende a esfriar, por exemplo, a área verde em sua superfície tende a diminuir, sendo substituída por gelo. Quando isto acontece, a quantidade de gás carbônico tende a aumentar. Ao aumentar, ela força a temperatura do planeta para cima novamente, através do efeito estufa. De outro lado, se a temperatura global tende a subir, a quantidade de plantas tende a crescer, e quando plantas crescem retiram gás carbônico da atmosfera, fazendo a temperatura baixar. Este é um exemplo de apenas um dos processos estabilizantes do clima que ocorrem devido à ação dos seres vivos. Vários outros existem e possivelmente ainda outros que ainda nem compreendemos.

Atualmente a comunidade científica tem nos alertado para diversos problemas ambientais que ameaçam nossa própria sobrevivência. Nos anos 70, alertou-se para a destruição da camada de ozônio. As indústrias fabricantes de gases CFC, nocivos à camada de ozônio, alegavam que tudo era mera especulação. Os efeitos dos gases CFC ainda não eram notados, e de qualquer forma, nenhuma mudança podia ser percebida. Chamaram os cientistas de alarmistas e argumentaram que deixariam de fabricar estes gases apenas quando o efeito fosse verificado. Preferiram ver o buraco na camada de ozônio, detectado na década seguinte - e, claro, os inúmeros casos de câncer de pele que ocorrem atualmente devido a ele. Não nos preocupamos com o que não vemos imediatamente !

Um outro problema grave é o efeito estufa. Retiramos do subsolo diariamente milhões de toneladas de carbono - sob a forma de petróleo - que a natureza, em seu processo de regulagem da temperatura terrestre, levou milhões de anos para enterrar! Buscar o lucro imediato é uma atitude compreensível, mas talvez não estivéssemos utilizando combustíveis fósseis - e não renováveis - em proporções tão elevadas se fossemos mais iniciados em ciência.

O aquecimento global ocorre lentamente para nossos padrões (embora extremamente rápido comparado às mudanças climáticas que ocorrem naturalmente !), sendo difícil de ser medido. Apesar de seus primeiros sinais já se fazerem sentir, estamos mais uma vez esperando que o pior aconteça. Mas que diferença faz um aquecimento de 1oC durante os setenta anos em que vivemos? Não muita, ainda, mas a continuidade do aquecimento, depois que nos formos, trará grandes mudanças. A pior delas é o derretimento do gelo polar e o aumento do nível do mar, que poderá submergir países inteiros, como Holanda e Bangladesh, e deslocar grandes massas humanas - algo não muito favorável para a paz mundial. As extinções também devem aumentar, porque a maioria das espécies não conseguiria se adaptar a mudanças tão bruscas. Muitas espécies que poderiam migrar, buscando novos lugares onde a temperatura continuasse favorável, não poderiam fazê-lo porque nós humanos demarcamos nossas áreas (ou delas?) fazendo com que florestas fossem cortadas por cidades e estradas.

A enorme população mundial é um outro problema novo que teremos de enfrentar nos próximos anos, e só poderá ser amenizado com o aumento nos níveis de educação. Alcançamos seis bilhões de habitantes, e este número deverá crescer rapidamente num curto prazo. Ou seja, nos próximos vinte anos é provável que este número dobre. A tendência é tão forte que se hoje cada casal passasse a ter apenas dois filhos - número aproximadamente igual ao necessário para manter a população estável - ainda assim a população continuaria crescendo rapidamente. Este ímpeto populacional acontece porque metade da população mundial hoje ainda não está em idade reprodutiva - mas estará em breve, aumentando a população para quase o dobro da atual.

Por que deveríamos nos preocupar com isto? O mundo não é capaz de suportar esta população? A resposta possivelmente é sim, mas quase certamente neste caso a diminuição do nível de bem-estar material seria grande. Existe, é claro, a possibilidade do planeta não conseguir suportar tanta gente. Poderíamos transformar o clima ainda mais rapidamente, de maneiras imprevisíveis, e acabar com muitos recursos naturais. É possível que ainda dentro dos próximos dez anos a própria água doce se torne um recurso caro, e diversos países poderiam entrar em conflito por causa dela.

Durante nossos anos como estudantes de 1o grau, aprendemos sobre uma certa teoria de Malthus, que dizia que a quantidade de alimentos crescia vagarosamente, enquanto a população crescia rapidamente. O resultado seria um controle perverso da população, já que com pouco alimento a fome, a peste ou a guerra nos assolariam. Nossos professores triunfantemente diziam que a teoria malthusiana estava refutada, pois desde sua formulação até hoje a população mundial cresceu rapidamente e a produção de alimentos também. Entretanto, longe de estar refutada, a teoria de Malthus é a base da teoria (cada vez mais influente) da evolução, de Darwin. A primeira parte da teoria da evolução é justamente a teoria de Malthus, ou seja, a população de qualquer espécie na Terra tende a crescer rapidamente, mas só até onde a oferta de alimentos permite. A segunda parte de teoria preocupa-se com as diferenças nas características de indivíduo para indivíduo. A maioria de nossas diferenças nos atrapalha. Quem é perfeito? Mas alguns de nós possuem características favoráveis, que facilitam nosso acesso a diversos recursos (ou evitam que sejamos capturados por um predador). Quando obtemos mais recursos sobrevivemos por mais tempo, e a chance de termos filhos é maior do que para a maioria da população. Estes descendentes normalmente herdarão nossa característica favorável e por sua vez também terão mais chances de obter recursos escassos e ter filhos, e assim por diante.

Deixando de lado por enquanto as consequências da segunda parte da teoria da evolução, a conclusão é que como somos apenas mais uma espécie viva, devemos nos preocupar com o crescimento de nossa população antes que nosso padrão de vida duramente conquistado decline. É verdade que conseguimos aumentar a produção de alimentos, mas isto não deve continuar para sempre. Se o crescimento de nossa população continuasse para sempre, após algum tempo cada centímetro do planeta estaria completamente lotado de pessoas. Isto claramente não é possível. A solução deste problema é educação. Nos países mais desenvolvidos a população já se estabilizou. É necessário educar rapidamente - e desenvolver economicamente - os países mais pobres. Mas enquanto as populações dos países mais desenvolvidos não obtiverem mais educação, elas não irão se preocupar com isto.

Por fim, um outro problema preocupante para os próximos anos é o da proliferação nuclear. Temos tido notícias de que países instáveis politicamente e bastante pobres, como Índia e Paquistão, passaram a produzir a bomba atômica. Em breve, países como Irã, Iraque e Afeganistão também poderão ostentar estes armamentos. A instabilidade na ex-União Soviética atualmente é perigosa em si mesma, e como se não bastasse, sabemos que material nuclear é constantemente contrabandeado de lá. Até mesmo terroristas parecem poder ter acesso a ogivas nucleares. Os Estados Unidos colocam-se energicamente contra esta situação, mas na verdade, são a maior potência nuclear do mundo. Como o direito internacional deve ser igual para todos os países, não se pode ter armas nucleares e querer que outros países não as detenham sem ser hipócrita.

Será que de alguma forma é mais seguro que existam armas nucleares nos Estados Unidos do que no Paquistão? Se pensarmos na situação atual, a resposta é sim, porque é claro que os Estados Unidos são bem mais estáveis do que o Paquistão. Se pensarmos a médio prazo, entretanto, veremos que até hoje, os Estados Unidos foram o único país a soltar uma bomba atômica em cima de outro país, o Japão. Veremos também que os Estados Unidos continuam a ser uma nação belicosa. Pensando no longo prazo, vemos que o risco para os Estados Unidos é o mesmo que existe para o Paquistão. Dado um período suficientemente longo de tempo, um fato improvável torna-se uma certeza matemática. Se esperarmos o bastante, os estados Unidos dispararão mais armas nucleares. Nem mesmo os Estados Unidos são infalíveis. Em algum momento pode-se disparar uma bomba devido a algum engano ou acidente. Aqui vai um exemplo: asteróides caem na Terra a todo momento. A maioria deles nem sequer atinge o solo, sendo queimada na atmosfera. Alguns deles podem explodir mais fortemente no ar ou mesmo atingir o solo. A explosão de um meteoro poderia ser confundida com a explosão de uma bomba e ser retaliada imediatamente. Muitos acham que foram justamente os armamentos nucleares que garantiram um período de relativa paz desde o final da Segunda Guerra Mundial, já que nenhum país seria louco de agredir o outro (Hitler ou Saddam descontados!). Mas nosso raciocínio a longo prazo transforma a manutenção continuada de armas nucleares numa sentença de morte para a humanidade.

A educação poderia ajudar o mundo mais uma vez, neste caso conscientizando as pessoas de duas formas: em primeiro lugar, a maioria de nós deveria saber que muitos de nossos comportamentos são geneticamente determinados e estão profundamente arraigados. Nossa agressividade e tendência a formar agrupamentos do tipo "nós contra eles" é uma característica presente em nossos primos chimpanzés. Nossos ancestrais, alguns milhões de anos atrás, já deviam apresentar esta característica. Assim é que nos juntamos em corintianos contra palmeirenses, brancos contra negros, cristãos contra muçulmanos, direita contra esquerda, sudeste contra nordeste, Paquistão contra Índia. Precisamos compreender que nosso comportamento e nossas emoções não evoluem tão rápido quanto nossa tecnologia. E detemos uma poderosa tecnologia nas mãos, para o bem e para o mal. Esta é justamente a segunda forma de conscientização que a ciência pode nos prover. É preciso que todos saibam qual é o poder de destruição de uma bomba atômica. É preciso que todos saibam que uma bola de fogo nuclear tem vários quilômetros de extensão, e sua temperatura é tão alta quanto a de uma estrela; que o deslocamento de ar de uma explosão nuclear esmaga tudo como um rolo compressor por uma distância de muitos quilômetros. É preciso que todos saibam de consequências como fome, epidemias e doenças que a radiação nuclear traria. A médio prazo, a fumaça dos incêndios provocados por uma guerra nuclear cobriria o Sol, congelando a Terra. E a longo prazo, quando a fumaça diminuísse, os eventuais sobreviventes receberiam para sempre altas doses de radiação ultravioleta letal vinda do Sol, já que a camada de ozônio também seria destruída.

Espero ter persuadido o leitor de como é importante educar as pessoas. A solução destes problemas gravíssimos que nos aguardam no futuro depende em grande parte do nível educacional e de conscientização das pessoas. Muitos efeitos colaterais benéficos viriam com a educação, também. O ódio e o misticismo diminuiriam animadoramente. Deixaríamos de evoluir às cegas e enxergaríamos o mundo realisticamente, e não como uma dádiva inesgotável.

Em todos os países, o nível de conhecimento científico é muito baixo mesmo entre pessoas com nível superior de educação. Muitos estudantes universitários não sabem definir "molécula". Pensam também que dinossauros e humanos conviveram, no passado. Gosto de impressionar amigos com noções simples, como a imensa distância entre as estrelas. Conhecimentos deste tipo maravilham muito as pessoas. Nem sequer é preciso falar de conceitos como relatividade ou mecânica quântica. Muitas idéias básicas são totalmente desconhecidas. Este fato faz pessoas inteligentes terem preconceitos e se apegarem a crenças místicas. A ignorância sobre a natureza gera nossa miopia temporal, que resulta em custos bem reais, mas que não conseguimos perceber claramente. São as "externalidades", como dizem os economistas. Conhecendo ciência deveríamos internalizar as externalidades! Por isso é preciso aprender mais.

Paradoxalmente, apesar das pessoas demonstrarem grande interesse em compreender o mundo, o desinteresse por assuntos científicos é total. Neste ponto permito-me expressar uma opinião filosófica muito pessoal. Creio que a adoção de uma visão de mundo simplista faz muitas pessoas inteligentes se resignarem com vidas e empregos monótonos, em troca de dinheiro. Nosso capitalismo, que nos proporcionou este alto grau de desenvolvimento humano, precisa mudar e remunerar atividades mais estimulantes e importantes. Quando um jogador de futebol ganha milhões e um professor recebe salário mínimo, há algo errado com nossos valores! Conhecendo nosso lugar no universo, vemos que nossos assuntos mais importantes, como crises econômicas, guerras religiosas ou intrigas políticas não têm nenhuma relevância. Como dizia o astrônomo Carl Sagan, somos um pálido ponto azul. As questões mais importantes para nós são as relacionadas com nossa compreensão de nós mesmos e do mundo. A recompensa por descobrir tantas maravilhas é enorme, em termos de desenvolvimento humano e satisfação pessoal. E esta acima de todas as outras é a importância maior de se transmitir conhecimentos científicos.

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