UMA GRANDE POESIA: A REALIDADE COMO ELA É

Bruno Maçães

 

Muitos poetas desprezam descrições científicas da natureza e dos astros. Consideram que a ciência, fria e calculista, elimina todo o romance presente neles. Preferem vê-los como deuses, ou como meros objetos estéticos, não sujeitos a uma análise objetiva.

Pessoalmente, considero uma pena quando alguém não consegue ver beleza na verdadeira natureza dos corpos celestes e de nosso mundo natural. Muitas pessoas além dos poetas também não enxergam beleza no mundo como ele é. Como os poetas, elas ignoram quase completamente o que é a natureza na Terra e fora dela. Por isso adotam visões mágicas e simplistas do mundo. Uma visão mágica do mundo pode ser bela, é claro. Mas as descobertas da ciência revelam um mundo muito mais belo. Um mundo maior do que o que vemos, com tantas maravilhas que é capaz de nos deixar atônitos.

O simples tamanho de nosso Universo contém beleza. O cosmo é maior do que o maior dos deuses criados pela imaginação humana. Nós, por exemplo, habitamos uma galáxia. Uma galáxia é uma ilha de estrelas no enorme vazio cósmico. Nossa galáxia contém duzentos bilhões de estrelas. O Universo deve conter em torno de cem bilhões de galáxias. Existem mais estrelas do que todos os grãos de areia em todas as praias da Terra.

Suponha que você trabalhe ou estude a vinte quilômetros de casa. Com seu carro, é possível que você cubra esta distância em vinte minutos. Se você fosse de avião, levaria um minuto. Uma nave espacial em órbita da Terra percorreria essa distância em menos de três segundos. Os ônibus espaciais conseguem dar uma volta em torno da Terra em cerca de 90 minutos. Isto equivale a uma distância maior do que 40.000 quilômetros. Suponha agora que quiséssemos ir até o Sol, nossa estrela mais próxima, utilizando o ônibus espacial. Digamos que isto seja possível. Então, com nossa velocidade de oito quilômetros por segundo, atingiríamos o Sol em 217 dias. Um tanto distante, já que o Sol é a estrela mais próxima. E as outras estrelas ? Depois do Sol, a estrela mais próxima é a chamada Próxima Centauri. É uma pequena estrela que gira em torno de outras duas maiores. Um sistema triplo. Podemos vê-lo da Terra. Sem ajuda de um telescópio, vemos um único ponto brilhante. Agora decidimos partir para a Próxima Centauri. Quantos anos duraria nossa viagem ? A resposta é: na velocidade do ônibus espacial, espantosos cem mil anos ! É uma escala de tempo muito longa para nós! Nossa espécie surgiu há não muito mais tempo do que isso. A civilização surgiu há uns dez mil anos, e a escrita, há seis mil. Cem mil anos até a estrela mais próxima ! E as outras estrelas, aqueles outros bilhões de estrelas ?

É claro que um dia poderemos viajar mais rapidamente do que o ônibus espacial. Suponha que o avanço da tecnologia nos permita viajar próximo à velocidade da luz. Para atingir tamanha velocidade, é necessária uma quantidade prodigiosa de energia. Mas um dia é possível que consigamos (com a ajuda da ciência !). Porém, ultrapassar a velocidade da luz requer uma quantidade infinita de energia, algo impossível, que não depende de tecnologia. A velocidade da luz é a velocidade máxima permitida na natureza. É uma lei da natureza (a ciência também descobriu muitas coisas interessantes sobre a velocidade da luz, difícil até de imaginarmos, mas isto é assunto para um outro dia...). À velocidade da luz, conseguiríamos chegar à Próxima Centauri em cerca de quatro anos. Um tempo razoável. Mas se quiséssemos ir mais longe, mesmo à velocidade da luz, nossa viagem duraria tempo demais. Até o centro de nossa galáxia, a viagem demoraria cerca de trinta mil anos. Trinta mil anos atrás nossos ancestrais caçavam com lanças de bico de pedra, e fugiam de leopardos. Trinta mil anos para viajarmos dentro de nossa própria galáxia ! A galáxia de Andrômeda é a mais próxima da nossa, depois das Nuvens de Magalhães, pequenas galáxias irregulares que orbitam nossa Via Láctea. Se quiséssemos ir até Andrômeda, mesmo à velocidade da luz, levaríamos mais de dois milhões de anos para chegar. Há dois milhões de anos, não existíamos. Nossos ancestrais, homo-habilis e homo-erectus viviam na África e Oriente Médio.

Conseguimos enxergar ao telescópio lugares muito mais distantes do que a galáxia de Andrômeda. Se fôssemos a alguns destes lugares, a viagem demoraria bilhões de anos. Nosso planeta formou-se numa nuvem de gás e poeira há 4,6 bilhões de anos. A vida na Terra surgiu há 3,8 bilhões de anos. O Universo é muito maior do que nosso pequeno mundo. De Próxima Centauri, não conseguiríamos nem sequer enxergar nosso planeta, que a nós parece ser tudo o que há. Nosso mundo e nossos governos são menores do que poeira...

Como não ver beleza nisto ? Na idéia de que os planetas e estrelas são lugares, com paisagens em cada planeta a serem vistas, e não deuses ou objetos inatingíveis ? Não é de arrepiar ? O mundo como ele é é muito mais belo do que aquilo que imaginamos que ele fosse. A ciência descobriu muitas outras maravilhas. Por exemplo, hoje sabemos responder pelo menos em parte à pergunta "De onde viemos?". Sabemos que nossos corpos e todos os objetos que utilizamos são formados por átomos. Os átomos de Hidrogênio e Hélio foram formados na grande explosão que deu início ao Universo. Todos os outros átomos foram formados dentro das estrelas. É a única maneira pela qual eles poderiam ter se formado. As estrelas os fabricam, e quando morrem, elas explodem e os atiram ao espaço. Estes átomos irão formar planetas e pessoas. Não é belo pensarmos que a matéria que nos forma, um dia, num passado muito distante, esteve dentro de uma estrela, a uma temperatura altíssima ?

O número que belezas que a ciência revelou é muito maior do que esta página poderia enumerar. Espero voltar a este assunto outras vezes. De qualquer forma, a lição que eu aprendi com tudo isto e gostaria de comunicar é que não devemos nos basear apenas na religião, na mitologia ou na autoridade de alguém na idéia que fazemos do mundo. A ciência tem sido o mais interessante e belo guia que conseguimos obter. Além de ser o melhor, pois em princípio qualquer um pode fazer uma experiência e observar por si mesmo a verdade das explicações científicas. As outras explicações baseiam-se apenas no testemunho de outras pessoas. Não importa quão sincero estes testemunhos pareçam ou sejam. Se uma explicação não pode ser provada e mostrada a todos, então talvez haja algo errado com ela. O método científico de descobrir pode ser enfadonho, penoso e difícil; outras explicações são mais fáceis de serem entendidas. Mas seus resultados, não há mais verdadeiros e belos !

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